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Negação Apaixonada da Modernidade

A deformação nas artes plásticas denotavam uma deformação moral da própria sociedade

criança sentada Heckel

criança sentada Heckel

O expressionismo é um movimento europeu, que possui suas raízes em dois outros  movimentos: o Fauvismo e o movimento alemão Die Brucke (“a ponte”). O Fauvismo foi um  movimento francês que se formou quase que simultaneamente com o Die Brucke, por volta de  1905. Os dois movimentos se opõem ao impressionismo, principalmente no que se refere ao  caráter quase que exclusivamente sensorial. Expressão é o contrário de impressão. Enquanto o  impressionismo tentava captar a realidade por estímulos sensoriais que vai do exterior para o  interior do indivíduo, o expressionismo buscava sua ordem inversa, queria expressar do interior  do indivíduo para o exterior.

nu Heckel

Nu - Erich Heckel

O Expressionismo alemão adota como ponto de referência a arte dos primitivos.  Observam nessa arte o trabalho humano em seu estado puro de criatividade. Posteriormente  essa tendência de valorizar a arte primitiva, infl  uenciaria o cubismo. Valorizavam a fealdade,  não que achassem belas, mas com a imagem partindo de um plano ideal e perfeito para um plano  real, se tornavam feias e perturbadoras. Não tinham a intensão de fazer com isso uma caricatura  da realidade. Buscavam uma poética do feio. O Feio nada mais é do que o belo decaído ou  degradado. Eles viam a sociedade como em estado de queda e degradação, algo muito pior do  que era para ser. Eles identifi  cam a burguesia como responsáveis pela falta de autenticidade da  vida social. Os artistas se declararam como trabalhadores braçais e homens do povo. Nietzsche 25 fala desse sentimento em seu postulado sobre a negatividade da história. Segundo Nietzsche, se  para existir é necessário querer existir, lutar para existir é prova de que existem forças contrárias  a sua existência. A existência é a autocriação da imagem individual e o sistema mecanicista  de trabalho é anticriativo, portanto destrutivo. Para Nietzsche, a industrialização acabaria por  destruir toda a sociedade, pois ela tiraria o sentido de trabalho do ser humano.  Por isso os  artistas expressionistas queria recomeçar do zero. Buscavam uma nova sociedade, baseada no  trabalho criativo e viam a arte como empenho para provocar mudanças sociais reais. Para eles  a arte era um dever social.

Cena-de-Rua-em-Berlim-Ernst-Ludwig-Kirchner

Cena de Rua em Berlim - Ernst-Ludwig-Kirchner

Essa preocupação com a revolução social é um ponto em comum com o Romantismo.  Entre o romantismo e o expressionismo há ligações muito profundas, ou nas palavras de Cláudia  Valadão “ligações subterrâneas”. A utilização de um caráter puramente subjetivo e a valorização  da visão individual, criam as ligações desses dois movimentos com um século de diferença. O  expressionismo pega emprestado o pessimismo romântico, mas sem deixar de lado a esperança  de uma sociedade melhor.  O romantismo havia inaugurando o pensamento antiaristrocrático,  mas de forma ainda lírica. O expressionismo deu continuidade a essa crise tomando decisão  real de ruptura, transformando isso em gesto e ação. Os antecessores desse movimento como  Van gogh, Munch e Gauguin, são repletos de histórias de evasão e suicídio. De fato eles viam  com olhos muito pessimistas a sociedade que se formava, mecanizada, apática e doente. A  deformação nas artes plásticas denotavam uma deformação moral da própria sociedade. Sob essa  ótica, diversos movimentos de vanguarda podem ser considerados os herdeiros do romantismo,  como o dadaísmo e o surrealismo. Pois no romantismo está essa gênese da negação apaixonada  da modernidade.

Homens de Artilharia

Homens de Artilharia - Ernst Ludwig Kirchner

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Casper David Friedrich (1774 – 1840)

Friedrich foi um pintor que mudou profundamente a arte de representar paisagens na Alemanha. Era um pintor romântico, pouco convencional, que tinha inclinação para representar o sentimento do infinito e interioridade. Ele estudou na academia de Copenhague (Dinamarca), terminando o curso retornou a Desden, de onde não saiu mais. Tinha contato com filósofos da época como Novalis e Tieck e ainda com Carus que foi um importante teórico alemão sobre a pintura de paisagens. Em Friedrich se nota uma intensa interioridade, geralmente com figuras solitárias ou de costas para o espectador. Foi duramente criticado em sua época pela tensão mística que se encontra em suas pinturas, embora ele raramente representasse igrejas, a não ser muito ao longe, representada apenas como ruínas. Muitas de suas figuras representam o homem diante do infinito, ou encarando o infinito.

Em 1818 Friedrich pinta o quadro o “Viajante Acima de um mar de nuvens”. O Viajante de Friedrich se torna o arquétipo do visionário montanhista.

Viajante Acima de um mar de nuvens

Viajante Acima de um mar de nuvens

A figura, no alto de uma montanha, coloca uma de suas pernas sobre uma rocha, como um caçador faz com a carcaça de um animal, e nessa posição contempla a paisagem de montanhas. As nuvens estão abaixo do protagonista, de onde ele pode ter uma visão privilegiada do horizonte. O desenho sugere que foi realizado de memória, tratando-se de uma paisagem inventada na cabeça do artista. Impossível olhar a imagem e não questionar a posição do indivíduo diante da grandiosidade da natureza. Afinal o que é o homem diante disso tudo? Ao contemplar o infinito o homem toma uma nova visão sobre si mesmo.

O viajante carrega consigo uma bengala, o único artefato que o ajudara a chegar ao alto da montanha, além das luvas e das botas de veludo. A paisagem a sua frente é misteriosa e irreal, onde não se pode ver com precisão onde o horizonte termina e começa o céu.

A montanha era um elemento constante na arte romântica alemã. A altitude do isolamento de uma montanha estava em pleno acordo com os ideais românticos. Lá no alto uma pessoa poderia se destacar, se individualizar e se afastar da sociedade. A amplidão também remete aos ideias
de liberdade. Enquanto as cidades fervilhavam em um processo acelerado de industrialização, o romântico sonhava com a solidão do cume da montanha, onde ele poderia encontrar a paz e serenidade. São grandes as referencias dedicadas a esse ícone. Em 1800 Pivery de Senancourt
declarara “Que espetáculos grandiosos preenchem a alma do filósofo que se encontra no pico da montanha”. (Montanhas da mente: história de um fascínio pág. 149). Charles Darwin afirmou em 1836 “todos sabiam da sensação de triunfo e orgulho que um belo panorama, visto de um
local elevado, trás a mente”. Em pouco tempo a altitude passou a representar uma série de qualidades muito significativas como a serenidade, a epifania espiritual e artística e a fuga do caos.

o crepusculo

o crepúsculo era um tama constante em suas obras. O pôr do sol favorecia a uma atmosfera misteriosa.

As paisagens de Friedrich são carregadas de sentimentalismo, nele a retratação da natureza deixa de ser uma questão de mimesis e passa a ser um veículo de expressão das suas idéias. Ele transformou a paisagem observada em uma imagem simbólica de sua alma. Assim como a montanha, o beira-mar se converte em símbolo das angústias metafísicas, um lugar privilegiado da descoberta de si. Observar o mar, da uma nova margem para observar o infinito. O balanço do mar propicia a vertigem e ao mergulho imaginário. Friedrich tinha uma predileção pelo entardecer e pelas primeiras horas noturnas. Constantemente colocava suas figuras em rochedos, ao entardecer, em volta de nevoeiro, por vezes só se via a silhueta das imagens por estarem na contraluz.

casal contemplando a lua

Detalhe do Quadro “casal contemplando a lua”. Mais uma vez a atmosfera sombria e mística, presentes em quase todas as obras de Friedrich. Esse tema da contemplação da lua ele retomará em outrros quadros.