Arquivo da tag: Kandinsky

SINESTESIA

Artigo Original de Vanessa Machado

“Eu buscava exprimir a musicalidade da Rússia por meio das linhas e da distribuição dos pontos coloridos”. Kandinsky

Primeira Aquarela Abstrata de Kandinsky

A arte de Kandinsky nos mostra as fases do abstracionismo e as relações com a forma pura e a sinestesia nas obras pictóricas. Kandinsky desenvolve a relação entre música e pintura, onde diz que a música organiza os seus meios no tempo e a pintura no plano, o que foi para ele a fonte de invenção da arte abstrata. “Tais efeitos se correspondem porque a pintura não se recebe exclusivamente pelos olhos, nem a música exclusivamente pelos ouvidos, mas ambas as artes se dirigem aos cinco sentidos (tato: impressão de picotamento ou de suavidade; olfato: o violeta tem um cheiro diferente do amarelo; paladar: pintura saborosa…). A arte produz também efeitos psicológicos: fala-se de pintura “fria”, de música “glacial”, os tons e os sons pode ser “quentes”. (P. 255)

Alguns cientistas, físicos, artistas e músicos observaram há muito tempo que um som musical provoca associação com uma cor específica. “Ouvimos a cor e vemos o som. As vibrações do ar (o som) e da luz (a cor) formam seguramente a base desse parentesco físico”. (P. 257)

Composição nº 6

Em um artigo publicado em 1938 o pintor diz para desconfiarmos da razão pura na arte e diz para não tentarmos compreender a arte seguindo o caminho da lógica, pois para ele a arte é o domínio do irracional, o único que resta aos homens num mundo esmagado pelo império da razão. Este irracional também existe na figuração onde o objeto é o ponto de partida para a aplicação desta liberdade, mas na arte abstrata há uma expressão muito mais livre. A razão não deveria ser afastada por completo já que ela faz parte do nosso processo de raciocínio, mas devemos esquecê-la no momento da nossa materialização e contatos artísticos. “Se a obra de arte te faz passear por um mundo antes desconhecido, o que mais podem querer?”. (P. 258)

Em uma análise entre figuração e abstração (pintura concreta) o pintor observa que na pintura figurativa o artista não pode prescindir do objeto (ou imagina não podê-lo). Na pintura concreta o artista se liberta do objeto porque este o impede de exprimir-se exclusivamente por meios apenas pictóricos. O espectador da arte figurativa acredita não poder separar o objeto da pintura pura ao observar a obra, o mesmo ocorre com a arte concreta onde o espectador fica desconcertado quando depara-se com a falta da figuração. Pensa muitas vezes não ser capaz de tal análise.

Composição nº 7

Kandinsky utilizava a sinestesia, que é a fusão de sentidos, para compor muitas de sua obras, eram correspondências fixas, irresistíveis e vitalícias. O livro Alucinações Musicais de Oliver Sacks mostra-nos que os humanos procuram uma relação entre música e cor há séculos. Diz que Newton supôs que o espectro tinha sete cores distintas que correspondiam de algum modo ignorado mas simples, às sete notas musicais da escala diatônica. “Órgãos de cores’ e instrumentos semelhantes, nos quais cada nota era acompanhada por uma cor específica, remontam ao início do século XVIII.”

A sinestesia de forma congênita se faz presente naturalmente no indivíduo, na sua criação e em sua vida, sendo ela um sentido a mais. “Tanto assim que questões do tipo ‘Como você se sente tendo isso?’ ou ‘O que significa para você?’ são tão irrespondíveis quanto ‘Como é estar vivo?’ ‘Como é ser você?’.

Para Kandinsky, suas comparações entre sons, cores e conceitos (frio, calor, tranqüilidade, excitação) e sua representação na pintura eram de fato naturais, já que para ele surgia de forma espontânea. Utilizou da sinestesia em diversas de suas obras, porém as que mais destacaram-se foram o trio de pinturas intituladas com termos musicais: composição, improvisação e sonoridade.

 

Bibliografia

Arnheim, R. (1980). Arte e Percepçãp Visual – Uma Psicologia da Visão Criadora. São Paulo: Thomson.

Kandinsky, W. (2000). Do Espiritual na Arte. São Paulo: Martins Fontes.

Kandinsky, W. (2001). Ponto e Linha sobre Plano. São Paulo: Martins Fontes.

Sacks, O. (2009). Um antropólogo em Marte. São Paulo: Scwarcz.

Anúncios