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Simbologia no Renascimento

Uma pintura tem qualidades em si mesma, mas também possui características simbólicas. Como pintor presto muita atenção nas qualidades da imagem, como:  manchas  bordas, cores etc. Muitas vezes esqueço que a imagem também pode ter uma característica simbólica muito grande. Isso acontece quando por exemplo, um se pinta uma árvore, mas essa árvore simboliza solidão, ou outro sentimento qualquer.

O renascimento foi um período onde se usava muita simbologia dentro dos quadros. Cada elemento tinha um motivo e um significado para estar na obra, que as vezes não nos damos conta à primeira vista. Conhecer sua simbologia é uma outra forma de apreciar essas imagens.

A pintura abaixo se chama “O batismo de cristo”, foi pintado por Verrocchio e Leonardo da Vinci.

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O batismo de Cristo – Andrea Del Verrocchio e Leonardo da Vinci – 1470. 

Os anjos à esquerda é atribuído a Leonardo, que era aprendiz de Verrocchio na época da execução da pintura (por volta de 1470). A pintura foi feita com Tempera (misturas de pigmentos com gema de ovo) e posteriormente algumas partes foi retocada com tinta a óleo (pigmentos dissolvidos no óleo de linhaça ou mamona). Na obra vemos cristo sendo batizado por São João batista. Ela foi pintada no estilo renascentista sendo respeitado as regras clássicas de composição, ou seja, as figuras sem demonstrar expressão facial, com seus rostos colocados em posição de modo a ter clareza do retrato (de frente, de lado ou de três quartos). Muita atenção às mãos e pés que junto com a posição do corpo, podem demonstrar as emoções das figuras.  Na parte de cima vemos a mão de deus que libera a pomba que simboliza o espirito santo. A ave de rapina é um adversário simbólico do espírito santo e levanta voo ao ver sua presença. Ao fundo, o coqueiro representa a árvore do paraíso que simboliza a salvação. Ao fundo podemos ver a fonte da água que cristo é batizado, simbolizando a pureza. Na mão de São João Batista podemos ver a inscrição ECCE AGNIVS. É uma abreviação em latim da expressão Dei ecce qui tollit peccata mundi (João, I:29 – Este é o cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo).

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Anjos que é atribuído ao pintor Leonardo da Vinci


Arte e o Estudo de Humanidades (1/2)

“O senso de humanidade ainda não me deixou.”

Kant, em seu leito de morte

cartoon Aula de desenho de Alain (1955/1983) The new Yorker Magazine.

É possível, que todos que já frequentaram a escola, tenham tido aulas de arte. Aquele disciplina espremida entre as matérias “sérias” e importantes para nossa vida futura.  É possível que você se lembre das aulas como uma bagunça ou como uma diversão, como se fosse uma aula para “relaxar” e descontrair.  Essa impressão é transportada para a idade adulta, de modo que quando vemos uma pessoa produzindo arte (artista), tem-se a impressão de que essa pessoa vive sem obrigações e sem seriedade com a vida “normal”.  Estamos tentando construir aqui o senso comum de arte e de artista, pode ser que você não faça parte desse grupo.

Mas a arte é uma prática humana e a história da arte é uma ciência que faz parte de um conjunto de disciplinas chamadas de ciências humanas (humanitas). Historicamente a palavra humanitas era usada no mundo antigo para designar aquilo que estava relacionado ao homem. Era aquilo que diferenciava os homens dos animais e não só destes, mas como também, de outros homens que não possuíam valores morais, que também eram chamados de bárbaros. Humanitas estava relacionada aos valores humanos e suas limitações.

Na idade média, esse conceito foi substituído pela ideia de oposição à divindade. Portanto o termo humanitas estava relacionada a uma ideia de fragilidade e transitoriedade. No final da idade média (renascimento) esse termo possuía essa ambivalência. Tanto era designado como oposição ao barbarismo, como oposição ao divino. E dessa concepção nasceu a tendência que comumente chamamos de Humanismo. Humanismo é tanto um movimento como uma atitude que pode ser traduzida em uma convicção da dignidade do homem baseado na insistência dos valores humanos e aceitação de suas limitações.

Dessa tendência foi possível pensar que a existência dos homens era um meio, mais do que um fim. Desse modo a atividade humana e seus registros foram considerados como dotados de valores em si mesmo pois possuíam um significado, que embora nem sempre estivesse claro, deveria ser preservado para estudos posteriores. Esses registros expressam ideias e essas ideias são objeto de estudo dos humanistas.  Todo tempo (período histórico) possuem qualidades em si mesmas, pois se tem a noção de que nem tudo é possível em todas as épocas. Desse modo, investigar os motivos que foram propícios para o aparecimento de determinada ideia no mundo é o que é estudado pelos humanistas. Desse ponto de vista, os registros nunca envelhecem nem podem ser substituídos por uma ideia “melhor”, pois ela possui qualidades em si mesma como registro histórico.

As subdivisões das ciências humanas é muito ampla. Cada qual com o foco em um detalhe da interpretação e análise dos registros históricos.  O historiador da arte é aquele que se ocupa de analisar os registros que chegam até nós através de obras de arte. Esse então, é o  seu material primário. Parece pouco, mas determinar se uma obra de arte foi possível em determinada época, para testar sua validade, não é tarefa fácil e essa compreensão é muito útil para os outros campos das ciências humanas. Mas para avançar no conceito antes é preciso definir o que é uma obra de arte.

(veja continuação no próximo post).

Referências:

Panofsky, Erwin. SIGNIFICADOS NAS ARTES VISUAIS. Ed. Perspectiva.

Duarte Jr., João Francisco. POR QUE ARTE-EDUCAÇÃO?. 19º editora.


Movimento Modernista

“Foi ela (Anita), foram os seus quadros que nos deram uma primeira consciência de revolta e de coletividade em luta pela modernização das artes brasileiras.” 

Mario de Andrade

Pintura "Tropical" de Anita Malfatti

Pintura "Tropical" de Anita Malfatti

Depois de ter estudado na Alemanha e nos EUA, Anita Malfatti havia chegado ao Brasil com novas idéias estéticas que não encontraram popularidade no meio acadêmico. Com isso começou a estudar pintura acadêmica para se adequar ao modelo brasileiro. Mesmo com essa intenção de “retorno à ordem” Anita Malfatti havia plantado uma semente sobre as novas concepções estéticas e aberto uma importante discussão. O próprio Mário de Andrade reconheceria a importância da exposição de 1917, mesmo sem entender direito aquelas figuras distorcidas “Foi ela (Anita), foram os seus quadros que nos deram uma primeira consciência de revolta e de coletividade em luta pela modernização das artes brasileiras. Pelo menos para mim.” (citação de Mário de Andrade transcrito no livro “De Anita ao museu” de Paulo Mendes de Almeida, pág. 09). Mesmo o grupo que comporia a semana de arte moderna não entendia direito “aquela arte”. Mas de algum motivo, seja por intuição ou por simples consciência da necessidade de uma renovação estética, eles souberam que algo de novo estava acontecendo.

Com as críticas Anita havia se fechado. Por 3 anos trabalhou solitária. Estudava arte acadêmica sem com isso ceder totalmente sua veia moderna. Em 1920 realizou uma nova exposição agora em um tom mais moderado. Mesmo assim esse “ajuste” não a salvou das críticas “Abandonando sua primeira maneira, na qual realizou uma exposição inesquecível, e os ensinamentos expressionistas que recebera na Alemanha, procurou fazer arte mais de toda gente. Erro gravíssimo. A fraqueza de sua segunda exposição provou-o claramente. Havia, é certo quatro ou cinco obras muito boas, mas, tinha-se a impressão de um artista que tivesse perdido a sua própria alma”. (Citação de Mário de Andrade, retirada do livro “De Anita ao museu” de Paulo Mendes de Almeida, Pág. 18). Sua pintura sofrera modificações no que diz respeito à estética e também quanto ao tema. Os temas passaram a ser mais femininos com títulos como “flores amarelas”, “Lago Sereno” etc. As naturezas-mortas ganham destaque em sua produção, provavelmente uma influência de Pedro Alexandrino. Até suas cores ficarem menos agressivas. Sua pintura passa a ser mais “suave”.

Enquanto Anita ajustava o tom de suas obras, um grupo de artistas já pesquisava e desenvolvia o que no futuro viria a ser o modernismo brasileiro. Contudo, a pesquisa só se intensificou com o fim da I Guerra Mundial, quando as publicações Européias sobre arte voltaram a ser editadas normalmente. Alguns artistas que estavam no exterior também voltaram depois da Guerra “engrossando o caldo” dos artistas com intenções modernizantes, como Sérgio Milliet e Rubens Borba de Morais. A partir de 1920 a movimentação em torno de uma modernização se tornou intensa. Brecheret voltara da

Itália em 1919 e em janeiro de 1920 já era amplamente divulgado pela imprensa e elogiado pelos modernistas. A estilização das figuras promovidas pelo escultor inspiraram os futuros modernistas. Menotti Del Picchia chegou em São Paulo também nesse ano e logo após, fundou uma revista com Oswald de Andrade e outros escritores chamada “Papel e tinta”, que possuía uma parte dedicada as artes plásticas. A revista teve pelo menos 6 edições e começou a circular em maio de 1920.

Os modernistas começavam a se unir como grupo. Se não possuíam uma proposta plástica homogenia, pelo menos eram unidos na idéia de quebrar com a arte acadêmica “Na arregimentação, de escritores e de artistas, o critério era simples… o desejo de inovar”. (Rossetti, Pag. 254). De maneira generalizada, todos os envolvidos clamavam por uma liberdade de expressão e pelo fim das regras na arte. Sem buscar um critério estético específico, o movimento tinha um caráter “destrutivo”, buscavam acabar com o conservadorismo vigente na produção literário, musical e visual. Eles se inspiravam na arte européia, mas existia uma preocupação geral de incluir elementos nacionalizantes. Havia uma busca e uma preocupação com a identidade nacional. Algumas pinturas projetavam imagens ideais do Brasil, parecem exprimir um sentimento de brasilidade latente. É o caso do quadro “Tropical” de Anita, pintada ainda em 1917, onde é representada uma mulher de cor de pele miscigenada carregando um cesto de frutas tropicais. Há uma estilização nas formas e uma deformação na figura humana. As cores não são naturalistas embora ainda esteja ligada ao objeto.


A questão do estilo em artes

“Não há forma objetiva de se verem as coisas, formas e cores são sempre captadas de maneiras diferentes” Wolfflin

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Vênus de Botticelli (à esquerda) e Vênus de Credi (á direita).

O estilo não é uma mania de cada artista, nem é a imitação de uma aparência. Assim como cada um tem uma grafia, na reprodução de imagens cada um terá um traçado diferente. E quando se fala de arte em seu mais alto nível, é incluída na questão do estilo uma certa intencionalidade. Quando o artista pinta um quadro ou desenha ele está fazendo milhares de escolhas. Todas essas escolhas alteram o aspecto do trabalho finalizado. Quando se vê um quadro, o que se está vendo é o resultado de milhares de escolhas que o artista fez durante o processo de criação. Tentar “ler” essas escolhas é um verdadeiro trabalho de observação e paciência. Tem que se ter em mente que para reproduzir ma imagem, existem praticamente infinitas maneiras de se fazer, e a escolha de como fazer não é aleatória. O artista usa aspectos de sua personalidade, aspectos de seu meio e questões de gosto. Mesmo artista diferentes desenhando um mesmo objeto, sendo totalmente fiel ao o que vêem, os desenhos serão tão diferentes quanto as personalidades de cada desenhista.

Detalhe

Não existe uma forma objetiva de se verem as coisas, as formas e as cores. Cada percepção verá de uma maneira diferente. No livro “conceitos fundamentais da história da arte” Wolfflin comprar duas pinturas da mesma época e com o mesmo tema. Nessa comparação fica evidente a questão do estilo.

O desenho de Botticelli é mais agitado, tem uma certa impetuosidade. O desenho de Credi está mais voltado para a figura em repouso. É mais calma seus volumes mais trabalhados e a figura está isolada (com fundo neutro). Observando os detalhes dos dedos, da pra notar que em boticelli a mão se abre em leque mostrando uma certa tensão maior enquanto no desenho de Credi é mais estático. Trata-se de uma diferença de temperamento entre esses dois artistas que se pode observar tanto no todo quanto no detalhe de cada obra. Para cada um há uma determinada noção de beleza de forma e movimento.

Referência:

“Conceitos fundamentais da História da arte”  Heinrich Wolfflin