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Retaguarda

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Meu avô no hospital. Aì ele ja está a 10 dias esperando por uma cirurgia. 

No último domingo fui ficar com meu avô no hospital. Ele está doente e meus pais tem revezado para passar o dia e a noite com ele. Ele está em uma ala do hospital chamada “retaguarda”, onde ficam os pacientes que estão esperando uma cirurgia.  Fui passar a noite com ele para aliviar a barra para meus pais.

Tirando o trabalho de ajuda-lo a levantar, calçar os chinelos , andar etc, não tinha muito o que fazer lá. Já que estava com meu caderno de desenhos resolvi rabiscar um pouco de observação. Acabei desenhando meu avo e mais alguns “amigos” que estavam também a espera de uma cirurgia. O resultado é uma das páginas mais sinistras do meu sketchbook.

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Arte, estudo e reconhecimento

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Quando damos aula nos deparamos com muitas questões que os alunos acabam nos propondo quase sem querer. Algumas questões que dentro da gente já foram superadas, mas que ainda pairam como uma sombra em nossas almas. Meu mestre costumava dizer que as vezes devemos voltar ao começo para enxergar um novo fim. Achei melhor escrever um pouco  sobre essa questão como uma forma de revisitar o problema e deixar registrado para as pessoas que possam se interessar.

Em sala, passo uma série de exercícios de desenho, que exigem esforço e atenção para serem resolvidos  e um dos praticantes indagou “nós estudamos tanto e quase não temos reconhecimento”. Olhei a sala quase vazia, com muitos faltantes  e não pude deixar de pensar “realmente existe uma âncora que impede algumas pessoas de se esforçarem nos estudos”. Acredito que uma dessas âncoras é o reconhecimento do seu esforço por parte do outro. Porque me esforçar para realizar algo que não me trará qualquer reconhecimento?

O estudo é trabalhoso, toma tempo e dinheiro e para o iniciante pode ser meio chato. Longas horas resolvendo problemas que na aparência não tem importância. Mas as vezes é assim mesmo. Para ler um bom livro antes é necessário ser alfabetizado. Essa é uma ordem que não pode ser invertida. Acho que o início da prática de uma arte começa com essa alfabetização. E isso pode parecer meio chato.  Precisamos abrir mão do reconhecimento dos outros, devemos assumir uma prática sem maiores interesses, para poder usufruir do conhecimento que a prática artística nos oferece.

Não podemos nos deixar desgostar pela aridez que as vezes se apresenta no estudo da arte. Essa dificuldade é aparente e superficial. A cada investida, cada energia gasta na direção correta nos deixa mais perto de conhecer as leis gerais do belo.  Cito Léon Denis que ilustrou com perfeição essa ideia

“Pode-se comparar esse exercício mental à subida de uma montanha de aspecto áspero e escarpado, mas da qual cada depressão do terreno contém maravilhas ocultas e que, do seu cume altivo, nos faz descobrir o conjunto harmônico das coisas que se desenvolvem sob os nossos olhares“.

(Grifo meu)

Para os corajosos, aqueles que permanecem fieis à prática e ao estudo sistemática da arte, garanto que as alegrias e os prazeres intelectuais são superiores aos problemas encontrados no meio do caminho.  Quantas pessoas não desistiram de aprender a tocar piano por reconhecer  que seu sonho de ser aplaudido por uma plateia numerosa está  muito distante?  O reconhecimento pode vir ou não, mas não devemos nos limitar por isso sendo os benefícios reais muito maiores.

Para fechar quero transcrever um parágrafo do Léon Denis do livro “O espiritismo na arte”

“O espetáculo da vida universal nos mostra, por toda parte, o esforço da inteligência para conquistar e realizar o belo. Do fundo do abismo da vida, o ser aspira e sobe em direção ao infinito das concepções estéticas, à ciência divina, aos cumes eternos onde reina a beleza perfeita. O esplendor do universo revela a inteligência divina, assim como a beleza das obras de arte terrestres revela a inteligência humana”.

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Modernismo e identidade Nacional

“O Modernismo manteve-se cúmplice de um projeto de constituição de uma arte brasileira típica”

Tadeu Chiarelli

O vendedor de frutas, Tarsila do Amaral, 1925.

A busca por uma identidade Nacional em artes plásticas era uma preocupação constante dos primeiros modernistas. Não queriam simplesmente imitar os estilos europeus. Queriam se apropriar e transformar essas tendências em algo novo e com a “cara” do Brasil. Um exemplo dessa busca é o quadro “Vendedor de frutas” de Tarsila do Amaral, pintado em 1925. Nesse quadro é representado um mulato de olhos azuis carregando um enorme cesto de frutas acompanhado por um pássaro tropical. As cores são chapadas e as formas muito estilizadas e a falta de profundidade dá uma impressão primitivista. O vendedor de frutas é uma alegoria do Brasil e do povo brasileiro, pois remete a uma ideia de paraíso tropical onde os frutos brotam, cabendo ao povo simples o trabalho apenas de colhê-los.

Essa questão do tema brasileiro é algo que vem desde os acadêmicos do século XIX. Pedro Américo pintou um quadro em 1882 intitulado “A carioca”. Comparando fica obvio as diferenças formais entre os acadêmicos e modernos, mas a questão de buscar um tema nacional permanece o mesmo. Em Pedro Américo a carioca é representada por uma ninfa, imagem idealizada de mulher bonita e jovem, que é branca. A figura se banha em um rio e ao lado pode-se ver uma fonte de água, símbolo da vida. O título da obra parece estar completamente desconexo com o que representa.

A Carioca, Pedro Américo, 1882.

A Carioca, Pedro Américo, 1882.

 

Outro tema brasileiro na pintura acadêmica pode ser representado pelo  quadro “o derrubador” de Almeida Jr. de 1871. O quadro representa um trabalhador braçal em um momento de descanso. Ele senta para fumar com seu machado e ao fundo pode-se ver parte da mata virgem. Ao lado da figura novamente o símbolo da fonte. Anos depois Portinari representaria outro trabalhador brasileiro em seu momento de descanso. Em “o lavrador” ele coloca um negro se apoiando em uma enxada. Ao fundo pode se ver a terra lavrada. No lugar da fonte, um trem como símbolo do progresso. Essa representação é peculiar à Portinari, ao invés de representar o Brasil como um paraíso idealizado, ele mostra um espaço que pode ser transformado pelo trabalho e pelo trabalhador.

“O derrubador” de Almeida Jr. e “O lavrador” de Candido Portinari.

 


Movimento Modernista

“Foi ela (Anita), foram os seus quadros que nos deram uma primeira consciência de revolta e de coletividade em luta pela modernização das artes brasileiras.” 

Mario de Andrade

Pintura "Tropical" de Anita Malfatti

Pintura "Tropical" de Anita Malfatti

Depois de ter estudado na Alemanha e nos EUA, Anita Malfatti havia chegado ao Brasil com novas idéias estéticas que não encontraram popularidade no meio acadêmico. Com isso começou a estudar pintura acadêmica para se adequar ao modelo brasileiro. Mesmo com essa intenção de “retorno à ordem” Anita Malfatti havia plantado uma semente sobre as novas concepções estéticas e aberto uma importante discussão. O próprio Mário de Andrade reconheceria a importância da exposição de 1917, mesmo sem entender direito aquelas figuras distorcidas “Foi ela (Anita), foram os seus quadros que nos deram uma primeira consciência de revolta e de coletividade em luta pela modernização das artes brasileiras. Pelo menos para mim.” (citação de Mário de Andrade transcrito no livro “De Anita ao museu” de Paulo Mendes de Almeida, pág. 09). Mesmo o grupo que comporia a semana de arte moderna não entendia direito “aquela arte”. Mas de algum motivo, seja por intuição ou por simples consciência da necessidade de uma renovação estética, eles souberam que algo de novo estava acontecendo.

Com as críticas Anita havia se fechado. Por 3 anos trabalhou solitária. Estudava arte acadêmica sem com isso ceder totalmente sua veia moderna. Em 1920 realizou uma nova exposição agora em um tom mais moderado. Mesmo assim esse “ajuste” não a salvou das críticas “Abandonando sua primeira maneira, na qual realizou uma exposição inesquecível, e os ensinamentos expressionistas que recebera na Alemanha, procurou fazer arte mais de toda gente. Erro gravíssimo. A fraqueza de sua segunda exposição provou-o claramente. Havia, é certo quatro ou cinco obras muito boas, mas, tinha-se a impressão de um artista que tivesse perdido a sua própria alma”. (Citação de Mário de Andrade, retirada do livro “De Anita ao museu” de Paulo Mendes de Almeida, Pág. 18). Sua pintura sofrera modificações no que diz respeito à estética e também quanto ao tema. Os temas passaram a ser mais femininos com títulos como “flores amarelas”, “Lago Sereno” etc. As naturezas-mortas ganham destaque em sua produção, provavelmente uma influência de Pedro Alexandrino. Até suas cores ficarem menos agressivas. Sua pintura passa a ser mais “suave”.

Enquanto Anita ajustava o tom de suas obras, um grupo de artistas já pesquisava e desenvolvia o que no futuro viria a ser o modernismo brasileiro. Contudo, a pesquisa só se intensificou com o fim da I Guerra Mundial, quando as publicações Européias sobre arte voltaram a ser editadas normalmente. Alguns artistas que estavam no exterior também voltaram depois da Guerra “engrossando o caldo” dos artistas com intenções modernizantes, como Sérgio Milliet e Rubens Borba de Morais. A partir de 1920 a movimentação em torno de uma modernização se tornou intensa. Brecheret voltara da

Itália em 1919 e em janeiro de 1920 já era amplamente divulgado pela imprensa e elogiado pelos modernistas. A estilização das figuras promovidas pelo escultor inspiraram os futuros modernistas. Menotti Del Picchia chegou em São Paulo também nesse ano e logo após, fundou uma revista com Oswald de Andrade e outros escritores chamada “Papel e tinta”, que possuía uma parte dedicada as artes plásticas. A revista teve pelo menos 6 edições e começou a circular em maio de 1920.

Os modernistas começavam a se unir como grupo. Se não possuíam uma proposta plástica homogenia, pelo menos eram unidos na idéia de quebrar com a arte acadêmica “Na arregimentação, de escritores e de artistas, o critério era simples… o desejo de inovar”. (Rossetti, Pag. 254). De maneira generalizada, todos os envolvidos clamavam por uma liberdade de expressão e pelo fim das regras na arte. Sem buscar um critério estético específico, o movimento tinha um caráter “destrutivo”, buscavam acabar com o conservadorismo vigente na produção literário, musical e visual. Eles se inspiravam na arte européia, mas existia uma preocupação geral de incluir elementos nacionalizantes. Havia uma busca e uma preocupação com a identidade nacional. Algumas pinturas projetavam imagens ideais do Brasil, parecem exprimir um sentimento de brasilidade latente. É o caso do quadro “Tropical” de Anita, pintada ainda em 1917, onde é representada uma mulher de cor de pele miscigenada carregando um cesto de frutas tropicais. Há uma estilização nas formas e uma deformação na figura humana. As cores não são naturalistas embora ainda esteja ligada ao objeto.