Americanização do imaginário

No século XX o cinema, o jornal, o rádio e a TV se firmaram como os principais veículos de comunicação de massa universais. Os temas americanos se propagavam por esses meios. A natureza dessas informações era voltada para o indivíduo e suas necessidades como a felicidade, o amor, aventuras, liberdade e bem estar. A universalização das necessidades também universalizou a cultura de massa. A tendência foi de substituir gradativamente uma cultura local por uma cosmopolita, criando assim um homem imaginário universal. A Indústria Cultural entrou em todas as esferas humanas como relação amorosa, beleza, vestuário e modelos de personalidade. Nos países ricos essa transformação da mentalidade aconteceu depois de um progresso econômico que poderia sustentar o alto consumo. Nos países em desenvolvimento a transformação da mentalidade veio antes do progresso econômico e industrial. Em muitos países ainda se viam grandes zonas analfabetas cuja única cultura era áudio-visual. Nesses países o sonho do consumo e do entretenimento vazio atuou como um verdadeiro ópio popular. A cultura de massa estava entrando então em uma área de dominação cultural, com clara predominância norte americana.

No caso brasileiro a situação foi ainda pior que nos outros países. Com a ditadura militar e a censura instituída em 1964, as emissoras de TV, cinemas e quadrinhos passavam em sua maioria conteúdo americano. Isso porque era garantido que a censura não barraria um programa vindo do exterior, com outra cultura, outros valores e que desconheciam totalmente a realidade política brasileira. Esses programas eram seguros então, pelo seu conteúdo apolítico.

Na década de 70, o Brasil sofreu uma forte colonização cultural. Houve uma invasão das séries de TV e filmes americanos. Para os produtores americanos isso era ótimo, pois um programa rejeitado nos EUA poderia facilmente ser vendido no Brasil. E isso de fato acontecia. Muitas vezes um filme era rejeitado na televisão americana pelo seu conteúdo de violência e no Brasil era transmitido normalmente. Pois a censura era só para conteúdos políticos. “Quando uma criança média atinge a idade de 14 anos, já testemunhou 11 mil crimes, não incluídos, aí, contrabando, combates, estupros, assaltos, raptos e espancamentos que não resultem em morte; – até os 15 anos de idade, essa mesma criança já se expôs a 14 mil horas de recepção de televisão” (R. A. Amaral Vieira, livro Comunicação de massa: O Impasse Brasileiro. 1976). Esses dados são de 1976, e na mesma época Amaral Viera escrevera em um de seus livros “Esse país (Brasil) é um excelente consumidor de lixo e resíduos da produção mundial”.

Isso contribui de fato para a descaracterização da cultura brasileira e para a alienação como povo. Pois dos 120 milhões de habitantes do Brasil no começo da década de 70, 44% eram analfabetos, um total de 52 milhões de pessoas aproximadamente. Uma elite que não cultiva o hábito da leitura fez da televisão o principal veículo de informação e cultura do país. O problema era que a TV era controlada pelo estado através da censura. Diz Amaral Vieira que na semana de 14 a 20 de agosto de 1976 foram exibidos 23 filmes na TV do Rio de Janeiro (canais 4 e 6). Dos 23 filmes um filme era nacional, um filme era grego, quatro filmes eram ingleses e 17 filmes eram americanos. Os seriados exibidos somavam 66 títulos e todos eles eram americanos. Das 109 horas semanais de exibição da TV apenas 31 horas foram gastos com programas nacionais. A maioria dos filmes brasileiros produzidos na época eram, em sua maioria, pornochanchada. Elas não eram pegas pelo censor; 85% dos 550 filmes nacionais produzidos de 1969 a 1976 são pornochanchada. Comenta Arnaldo Jabor, cineasta brasileiro “O problema é que o brasileiro é um povo sem nenhuma formação cultural. A chanchada é um filme feito com pouquíssimo dinheiro, inteiramente em cima da incultura brasileira, do lado obscuro da personalidade do povo, em cima do nosso analfabetismo, da nossa burrice da nossa deseducação, da nossa repressão sexual, etc.”

A chanchada, portanto, não tinha uma característica cultural expressiva. Somente restavam os filmes estrangeiros, sobretudo americanos, que traziam comportamentos americanos falsos, em situações absurdas. O filme “Tubarão” fez muito sucesso no Brasil, foi um dos filmes mais assistidos na época, mostrava tubarões comendo gente na costa americana. Uma história completamente absurda que acaba com o “monstro” sendo explodido por uma dinamite. Isso é quase genocídio cultural e psicológico. O estilo americano de cinema impregnou na sociedade brasileira. Qualquer filme feito fora do padrão americano é rejeitado, formando uma estética quase que obrigatória.

O contato com a cultura americana começa na infância. Em 1976 dos 153 livros infantis publicados, apenas 13 eram nacionais. Dos 174 quadrinhos publicados somente dois eram nacionais, “Mônica” e “Cebolinha” de Maurício de Souza. Nessa época, Maurício de Souza já exportava seus quadrinhos pela United Press International (UPI), que distribuía seus desenhos em diversos países. O fato dos personagens fazerem sucesso no exterior esbarra na idéia de que eles eram completamente despidos de características nacionais, isto é, totalmente descomprometidos com a realidade brasileira. Mônica e Cebolinha poderiam ser crianças de qualquer lugar do mundo. Isso não contribui em nada para a formação de uma identidade nacional.

Figura 1 – Mônica e Cebolinha, personagens de Maurício de Souza. Fonte: 4.bp.blogspot.com. Acesso em: 13 de janeiro de 2010.

Essa superexposição da criança à cultura americana gera equívocos de conhecimento. A criança brasileira é informada que neva no natal e que o açúcar é feito da beterraba. A criança é impedida de se identificar com o próprio país. Passa a querer viver no mundo de ilusão americano, onde tudo é belo e todas as pessoas são felizes. E o pior, onde o dinheiro compra tudo. O povo cresce sem raízes com a terra, sem compromisso com sua história e sem identidade. A maior parte da população é facilmente condutível e moldável pela TV.

No Brasil, o processo de identificação nacional nunca foi completo. Existia, desde a monarquia, uma necessidade de se banhar com a cultura estrangeira para ganhar o status de civilização. Primeiro era a Europa, principalmente Portugal e França, desde as últimas décadas do século XVII. E depois o foco passou a ser os EUA. Esses países constituíam o espelho onde o Brasil tinha de se mirar. Em 1869 o jovem engenheiro Paulo Souza foi estudar nos EUA para se aperfeiçoar na profissão e lá, acabou trabalhando temporariamente. De lá ele envia uma carta a um amigo no Brasil e manifestou suas impressões sobre a educação americana:

“Nós, míseros cidadãos brasileiros, não temos idéia, nem podemos ter, do imenso apreço que o Yankee tem à escola. (…) Os homens mais ativos e conceituados são escolhidos para fazer parte do conselho de educação. (…) É que a educação para o americano do norte é como a carne e o pão de que necessitamos todos os dias. Por isso é também o povo mais instruído, o mais ativo, o mais livre e o mais poderoso do mundo”.

Existe um vício de origem na história do Brasil que diferencia de maneira gritante a formação dos dois países. Enquanto os EUA foi fundado por filósofos e intelectuais que podiam dar educação para o povo que se formava, no Brasil, os primeiros cidadãos eram os degenerados e condenados à prisão de Portugal. E em quanto a América do Norte se industrializava, o Brasil ainda penava com sua frágil organização. É natural então, que o povo brasileiro se espelhe nos países mais ricos, a fim de pular etapas no desenvolvimento econômico. Em 1914, o então prefeito da cidade de São Paulo, diria em relatório oficial, que a cidade estava se preparando para ser o novo pólo industrial, algo como Chicago e Manchester juntas. A cidade inglesa logo seria esquecida ficando apenas Chicago como ideal a ser perseguido. Na década de 50 podia se ver nos bondes que circulavam em São Paulo a frase: “São Paulo, a Chicago da América do Sul” (Ortiz, 1990).

Essa visão e necessidade de imitar os americanos geram uma dependência cultural. As classes dominantes do país imitam o país dominante mudando seus costumes, a alimentação, o vestuário, a habitação e até o folclore. Esses hábitos vão passando para as camadas mais baixas que também agem por imitação. Desse modo, ninguém estranha quando no Brasil, no dia 31 de outubro, aparecem crianças pedindo doces de casa em casa como é hábito no “Hallowen” americano. Isso leva a um desprezo de tudo o que é nacional e uma supervalorização dos costumes estrangeiros. Eficiência e competitividade, melhora na performance e otimização do tempo, esses valores capitalistas automatizam as relações e as atividades do país colonizado. Passa-se a pensar somente com visão no lucro podendo gerar idéias completamente fora da realidade nacional, como no caso do vereador Agnaldo Timóteo. O cantor e vereador enviou uma proposta ao prefeito de São Paulo (2009) para se construir uma grande estátua do artista pop Michael Jackson no parque do Ibirapuera. E como se não bastasse, a proposta incluía a mudança do nome do parque mais tradicional da cidade para “Parque do Ibirapuera Michael Jackson”. Sua idéia era atrair mais turistas e assim aquecer a economia local. A proposta foi retirada depois que o vereador recebeu mais de dois mil e-mails com críticas sobre o projeto.

Essa visão de que tudo que vem de fora é melhor está enraizada no Brasil, e é uma imposição que vem de fora. O personagem Zé Carioca, criado pela Disney para representar o brasileiro, é um indivíduo feliz apesar de pobre, que na verdade mora na favela porque tem preguiça de trabalhar. E que, hora ou outra, se mete em confusão e tem que ser ajudado pelo Pato Donald, americano correto e bem sucedido. E esse tipo de mensagem chega a toda hora para nós. No dia primeiro de dezembro de 2009 o comediante americano Robin Williams fez uma piada ingrata durante uma entrevista com David Letterman do programa “Late Show”. Ele disse “Espero que ela (Oprah) não esteja chateada de perder as olimpíadas. Chicago enviou Oprah e Michelle (esposa do presidente Barack Obama). O Brasil mandou cinquenta strippers e meio quilo de pó”. Isso afirma a visão americana de que no Brasil tudo é carnaval e corrupção.

Figura2 – Carmen Miranda levou aos EUA um estereótipo brasileiro ligado à imagem da baiana. Ela cantou o samba aos americanos em inglês, e sua imagem foi veiculada às grandes massas pelo cinema. Ela absorveu a cultura americana, e os americanos absorveram fragmentos da cultura brasileira. Fonte: http://www.toptenz.net. Acesso em: 13 de janeiro de 2010.

Figura 3 – Zé Carioca, personagem de Walt Disney que estereotipou o brasileiro. Fontes: ideiasolta.blogs.sapo.pt; http://www.maniadegibi.com. Acesso em: 13 de janeiro de 2010.

Autor: Luiz Vilarinho

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

  1. SANTAELLA, Lucia – Cultura e arte pós-humano. São Paulo: Editora Paulus, 2003.
  2. ECO, humberto. Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Editora Pespectiva,1987.
  3. MCRACKEN, Grant. Cultura e Consumo. Editora Mauad, 2003.
  4. MORIN, Edgar. Cultura de Massa do Século XX. Editora Forense Universitária, 1987.
  5. Eagleton, Terry. Idéia de Cultura. São Paulo. Editora Unesp, 2003.
  6. ADORNO,Theodor W. & HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento.São Paulo. Editora: Jorge Zahar. 2002
  7. VIEIRA, Amaral. Comunicação de Massa, o impasse Brasileiro –São Paulo: Editora: Forense Universitária, 1978.
  8. PERVIN, Lawrence A. Personalidade – Teoria e Pesquisa.Editora: ArtMed, 2004.
  9. COHN, Gabriel – A Comunicação e Indústria Cultural. São Paulo.Editora Nacional, 1971.

10.  BARTLES, Roland. Mitologias. São Paulo: Editora Difel, 1980.

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