O Conceito de Cultura

Cultura é uma das palavras mais complexas em língua portuguesa devido a sua grande quantidade de significados. Acredita-se que é uma variação da palavra latina culter que designava relha de arado. Cultura em seu significado original referia-se a atividade agrícola e lavoura. Com o tempo, passou a significados mais amplos e era ligado aos termos “moral” e “intelectual”. O resultado disso é uma palavra de pura abstração que pode ter múltiplos significados. Em 1952 os antropólogos Kroeber e Clyde Kluckhohn colocaram em discussão a palavra cultura e chegaram a 164 definições.

Em antropologia, a primeira definição aceita foi a de Edward Tylor, em seu livro Primitive Culture, publicado em 1871: “(…) é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábito adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”.  Mas o conceito de cultura continuaem evolução. Alguns conceitos interessantes sobre cultura:

“Cultura é aquilo que conduz as ações humanas” (Kroeber). 

“A cultura não passa de uma abstração vaga” (Radcliff-Brown). 

“Cultura é um sistema simbólico que resulta da criação cumulativa da mente humana.” (Lévy-Strauss)

Independente do sistema cultural ao qual o indivíduo pertença, ele deve satisfazer um número determinado de funções vitais como alimentação, sono, respiração, atividade sexual etc. A maneira como o homem satisfaz essas necessidades varia de cultura para cultura. A enorme variedade de culturas para satisfazer um número reduzido de necessidades é o que faz do homem um animal predominantemente cultural. O comportamento não é biologicamente determinado como acontece com os animais. Nem a genética determina as ações. O processo de desenvolvimento da civilização é claramente acumulativo. Conserva-se o antigo, apesar da aquisição do novo. Assim, o homem não deixou de navegar porque havia inventado o avião. Ele é herdeiro de um longo processo acumulativo que reflete as experiências das numerosas gerações que o antecederam.

Os evolucionistas do século XIX criaram o conceito de desenvolvimento cultural unilinear, isto é, os povos deveriam “evoluir” em estágios pré-determinados. Eram eles: o selvagem, a barbárie e por fim a civilização. Coincidentemente o estágio mais avançado era o da civilização européia, a mesma que tinha criado o conceito de desenvolvimento linear. Em oposição a essa teoria, Frans Boas desenvolveu o conceito de desenvolvimento multilinear. Nesse novo sistema cada sociedade evoluiria através de caminhos próprios.

É fácil alguém julgar a cultura que faz parte, como sendo a “correta”. A cultura é a lente pelo qual o homem vê o mundo. Esse fato é chamado de etnocentrismo e esse fenômeno é universal. A chegada de um estranho na cidade pode ser vista como quebra na ordem social, daí o xenofobismo. É costume discriminar os que são diferentes, até mesmo entre pequenos grupos dentro da sociedade.

Mas esse comportamento é aprendido e não nato. O homem aprende por imitação, é uma eterna cópia do mundo que o rodeia. Existem vários relatos de crianças que foram abandonadas ou privadas do convívio social. Algumas histórias são quase lendárias como no caso do rapaz Kaspér Hause, encontrado em Nuremberg na Alemanha, em 1828. Acredita-se que o rapaz foi criado trancado em um porão e preso à parede por correntes tão curtas de modo que não podia ficar totalmente de pé. Na adolescência foi abandonado em uma praça de Nuremberg com uma carta endereçada ao Capitão da Cidade. Kasper House não sabia falar nem andar, não gostava de carne e tinha baixa sensibilidade ao frio. Ele foi tratado, aprendeu a falar e foi treinado na escrita. Quando já conseguia falar ele afirmou não conseguir distinguir o sonho da realidade no período em que foi enclausurado. Nunca se soube quem fez aquilo com ele. Kasper House foi assassinado em 1838, os culpados nunca foram encontrados.

Um caso recente e curioso aconteceu na Rússia em 2009. Uma mãe deu parte na polícia por sequestro de um de seus filhos pelo pai depois de cinco anos. A mãe foi impedida de ver a filha durante todo esse período. Ao chegar à casa do pai, a polícia teve um choque. Encontraram uma menina de cinco anos trancada em um apartamento cheio de cachorros e gatos. Ela nunca tinha saído na rua. A polícia afirmou em um jornal local “Sem tomar banho, ela usava panos sujos e tinha claros atributos de um animal, pulando em cima das pessoas”. Mesmo depois de ir ao centro de reabilitação, quando as pessoas saiam do quarto, ela arranhava a porta e latia como um cachorro. O apartamento onde ela morava não tinha sistema de aquecimento ou esgoto. O pai provavelmente não tratava dela muito diferente dos outros animais que viviam na casa. A menina de nome Natashenka, comia com as mãos e lambia os pratos, em uma atitude que imitava o comportamento canino. O comportamento é então, algo que se aprende pela observação e pela prática da imitação, não importando onde o indivíduo se espelhe.

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4 respostas para “O Conceito de Cultura

  • Hadijja

    Olá Luiz,
    Gostei do seu texto inaugural do blog. Espero poder aprender cada vez mais sobre cultura, pois é um assunto que me instiga e que me interessa. Quero aproveitar para parabenizá-lo por seus desenhos, achei bem interesse.
    Espero que continue seguindo essa linha e trazendo cada vez mais assuntos interesses como esse. Com certeza irei continuar acompanhando o seu blog.

    Abs,
    Hadijja

    • luizvilarinho

      Obrigado Hadijja pelos comentários. Espero que goste dos novos posts.
      Acha válido que eu coloque a bibliografia depois de cada atualização?

      abraços

      • Hadijja

        Oi Luiz,
        Acho super válido colocar a bibliografia, assim quem tiver mais interesse pelo assunto saberá onde consultar.
        Com certeza continuarei acompanhando os seus posts.

        Abraços

  • Pedro Machado

    Fala Vila!

    Parabéns pela iniciativa. Vá em frente.. Divulgue textos e seus desenhos… A respeito desse em particular, dê uma olhada em Durkhein e o conceito de conciencia coletiva… Acredito que essa indicação é o começo dos frutos que seus textos podem trazer. Um abraço, Pedro Machado

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